Cultura Hip-Hop, praticas e tendências

O Hip-Hop é uma cultura que se figura como de paz, unidade, amor e que procura inculcar na cabeça das pessoas, sobretudo da camada jovem, a ideia de divertimento sem violência.

Esta cultura incorpora quatro elementos ou artes principais, onde os seus fazedores se refugiam à criatividade para se imporem, nomeadamente: o DJ´ing, arte praticada por um músico sem instrumentos tradicionais de um músico, mas que com a sua criatividade produz sons para o RAP (Música da Cultura Hip-Hop). O Beat Boy´ing (ou B.Boy) que representa a dança dentro da Cultura Hip-Hop. O MC´ing, que pode ou não utilizar a técnica do improviso para cantar o RAP. E por fim temos a habilidade do Writing, que representa a arte plástica, expressão gráfica nas paredes utilizando o spray e não só.

Sendo uma Cultura, o Hip-Hop não deve ser consumido de algum modo. Seja em forma de aquisição de roupas caras, bens móveis e imóveis de ostentosos preços. O Hip-Hop é um modus vivendi, ideologicamente aceite pelos seus seguidores, no qual constantemente deve-se procurar melhorar as habilidades pessoais no que diz respeito à prática dos seus elementos.

Estamos perante uma cultura de transformação de “armas em enxada”, de violência física numa verdadeira harmônica batalha, onde de forma pacífica os seus membros confonta-se com recurso às suas habilidades dentro dos quatro elementos citados anteriormente.

A nível universal, o dia 12 Novembro foi consagrado como o dia da Cultura Hip-Hop. Foi justamente nesta data que African Bambataa criou a Zulu Nation, uma Organização Não Governamental (ONG), que conseguiu atrair membros de muitas gangs para a cultura Hip-Hop, através da passagem do conhecimento sobre esta cultura, como forma de dar às pessoas uma alternativa para a saída das gangues e drogas.

Os moçambicanos não ficaram alheios a esta data. E movidos por este espírito de Bambataa decidiram juntar-se para reflectir em torno de diferentes aspectos que movem o Hip-Hop no mundo em geral, e em Moçambique particularmente.

Foi seguindo este objectivo que a Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane, através do Departamento de Sociologia e em colaboração com Hélder Leonel organizou uma palesta no campus universitários ostentando o lema: “Cultura Hip-Hop, Analisando Práticas e Tendências”.

Foi uma palestra bastante concorrida, onde se pôde perceber dentro do anfiteátro, a presença de estudantes, hip-hoppers, académicos e do público em geral. O painel foi constituído por nomes sonantes da cena Hip-Hop moçambicana. Trata-se dos rappers Dingzwayu e S’Gee do agrupamento Xitiku Ni Mbawula, Dygo Boy do Grupo Magnezia, do rapper Simba, todos deliciados pelas misturas do DJ Speeche.

Coube a Hélder Leonel dar o pontapé de saída para este que podemos considerar de “ataque à academia” através da apresentação do historial do Hip-Hop nos Estados Unidos, para depois descrever as fases desta cultura em Mombique.

Durante a descrição notou-se que diferentemente nda realidade novaiorquina, o Hip-Hop Moçambicano seguiu um movimento inverso. Enquanto em Nova Yorke o esta cultura ganha corpo na periferia, em Maputo-Moçambique ela tem como epicentro a urbe, em torno dos jovens da elite da época, isto nos final dos anos oitenta e início dos anos noventa. Este período foi marcado pelo auge da guerra civil que durou dezasseis anos e terminou em 1992.

Nos últimos anos o conflito tinha atingido as zonas periféricas das grandes cidades do país incluíndo arredores da Cidade de Maputo. Daí que os jovens destas zonas periféricas não tinham opções de intretenimento senão se preocuparem em aranjar onde melhor se abrigar para não ser surpreendido pelos ataques.

Do outro lado da cidade a situação registava maior tranquilidade. Diante desta realidade, os jovens tinham mais tempo e oportunidade de se informar a respeito do que acontecia ao longo do mundo, dos contornos da Cultura Hip-Hop, ao que havia toda uma conjuntura para a sua aderência e pratica dos seus elementos com maior “agressividade”.

Talvés seja por isso que em muitos países pobres, com mais ênfase para os fustigados pela guerra civil, a Cultura Hip-Hop é eliticamente centro-urbana.

Durante a intervenção do painel principal foram levantadas várias questões. Desde o envolvimento dos palestrantes com a cultura, a forma de estar na mesma, os conteúdos abordados nas suas manifestações.

No que se refere ao envolvimento dos palestrantes na Cultura Hip-Hop, há uma unanimidade em afirmar que este foi possível graças aos meios de comunicação social. O acesso à informação catalisou o processo, e foi constantemente sugerindo que os jovens deviam aderir a esta maneira de ser e de estar.

A globalização mostra-se como um processo muito aberto em termos de opções. As culturas vão se misturando incluindo o Hip-Hop. Deste modo esta cultura também oferece várias opções, o que confere aos seus seguidores diversas opções relacionadas com a forma de estar na mesma.

Depois da fase das gangues, os integrantes deste movimento fizeram de tudo para espalhar a ideia de paz, amor, unidade e entretenimento sem violência. Isto constituiu a essência do Hip-Hop em termos de contudo. Obviamente que com a dinâmica social, as coisas ganharam outros contornos. O mercado impõe-se na cultura e acaba-se distorcendo a essência do Hip-Hop no que diz respeito aos conteúdos abordados pelas manifestações desta cultura.

A ideia com que se pode ficar desta palestra, dizem respeito à força que a Cultura Hip-Hop tem no seio dos Moçambicanos, e agora começa a ser reconhecida dentro da academia como uma verdadeira cultura de paz, amor, unidade e entretenimento.

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Cultura Hip-Hop, praticas e tendências







Interconexões Humanas, o Cordão que Une dois Povos Irmãos

O projecto Interconexões Humanas nasce com intuíto de anular fronteiras, impedir a barreira imposta pelos oceanos, como forma de aproximar produtores de conteúdos/conhecimento de países falantes da língua portuguesa, numa realidade onde a comunicação com o recurso a tecnologia de informação e comunicação torna-se fundamental.

Trata-se de um projecto que começou como o nascimento de um bebé, que com muito trabalho, crença e paciência dos seus interveniêntes, tanto em São Paulo (Brasil) e Maputo (Moçambique), esperando-se que se estenda para outros países lusófonos obedeceu fases doces e amargas. Táis prendem-se com reduzíssimas condições de conexão via net que figura como uma das principais , senão a principal arma de conacto que se pretende ser permanente.

Mas temos a dizer que a crença e a vontade de fazer as coisas acontecerem acaba ultrapassando essa e todas barreiras impostas pela vontade dos homens e, logicamente pela natureza.

O bebé ora nascido foi criado e acarinhado no meio de muitas dificuldades, mas nunca faltou-lhe o amor merecido. Cresceu e se sente robusto pelo que começa a autorealizar-se.

O resultado dessa autorealização é a vinda de um dos seus filhos André Gustavo a Maputo (Moçambique), para junto de produtores de conteúdos/conhecimento intercambear ou seja interconectar a vivo e a cores. André chegou, viu e está vencendo. Não que se trate de um concurso, mas sim de um desafio.

Este desafio tem tudo para ser ultrapassado, porque de acordo com a nossa opinião encontrou um ambiente favorável para “trampar”, apesar das adversidade citadas anteriormente e que são típicas de um país como Moçambique.

O “brazuca” aterrou no Aeroporto Internacional de Maputo por volta das 15 horas locais, 10 horas de São Paulo. No Aeroporto esperavam-no Xitiku Ni Mbawula (Dingzwayu e SGee), Salvador Nkamate e Isabel Novela.

A caminho do hotel foi-se criando a agenda. Ao que se decidiu efectuar os devidos contactos ainda no mesmo dia. Rumou-se ao encontro de Hélder Leonel responável pelo programa radiofónico de Hip-Hop da Rádio Cidade (www.classicohiphoptime.blogspot.com), que se diga de passagem, a melhor FM de Maputo, quiçá de Moçambique.

No referido encontro concluíu-se que seria feito, neste domingo, um programa ao vivo no Estúdio Auditório da mesma rádio, onde a cabeça de cartaz será o DJ Emtrasegente. Aí haverá uma sessão de perguntas e respostas entre o público em geral e o convidado, performance, mistura, apresentação de Rappers locais e muita festa.

Porém no dia aterior, Sábado, o Dj Emtrasegente vai escalar o perifério Bairro Patrice Lumumba, habitat do Colectivo Xitiku Ni Mbawula, para um intercâmbio com Rappers locais, projecção de filmes, performance e muita cultura.

De referir que o DJ Emtrasgente (André Gustavo Matos) permanecerá em Maputo durante um período de 15 dias.

É Nóis

A Kaya  

É Nois

DJ Emtrasegente e Dingzwayu

Hélder Leonel aka Face Oculta

Hélder Leonel e DJ Emtrasegente, homegeando o Grande Sabotage

É Nois Manos e Minas, A Kaya: Hélder Leonel, DJ Emtrasegente e Dingzwayu

MBS: A queda da máscara

 

Marcelo Mosse

 

Normalmente não nos metemos muito em questões politicas ou  de alguma forma polémicas. Mas esta opinião chamou-me  a atenção. Recebi-a hoje via e-mail e  decide compartilhar.

O coordenador executivo do Centro de Integridade Pública, Marcelo Mosse (na imagem) – aquele que foi colega do assassinado jornalista Carlos Cardoso, que investigava corrupção em Moçambique, escreveu o seguinte a propósito da menção pela Casa Branca de que o proprietário do Maputo Shopping Center, Momed Bachir Suleman (MBS), está envolvido no narcotráfico:

 A menção pela Casa Branca de que o proprietário do Maputo Shopping Center, Momed Bachir Suleman (MBS), está envolvido no narcotráfico, simboliza a queda de uma máscara que o Estado moçambicano andou a suportar há mais de duas décadas. MBS é um comerciante do norte de Moçambique que, em meados dos anos 90, no auge da liberalização da economia, começou a prosperar vendendo electrodomésticos de ponta num mercado sempre sedento de artefactos electrónicos a preços de pechincha. Bachir tinha um passado modesto, diz-se, de vendedores de capulanas em pequenas cantinas.

Em meados de 90, Moçambique era um país completamente mergulhado nas malhas do crime organizado. Abertas as fronteiras e reduzido o poder repressivo e vigilante do Estado, irrompeu uma tentação por dinheiro fácil e o país passou a ser usado como rota de tráfico de droga. Em 1995, quarenta toneladas de haxixe foram encontradas em plena cidade de Maputo mas nunca houve condenados. De lá para cá, foram vários os casos de drogas denunciados, ligações expostas, comerciantes que prosperaram nessa maré, mas nunca foram responsabilizados.

Numa democracia emergente e um Estado paupérrimo, altos oficiais públicos optaram por viver das luvas da impunidade que ofereciam à grande corrupção e ao crime organizado. Em 2001, num artigo em conjunto com Peter Gastrow, descrevemos as principais formas de lavagem de dinheiro, corrupção e crime organizado em Moçambique, identificando a excessiva penetração que as redes criminosas tinham no Estado, nomeadamente na Polícia, nas Alfândegas e na Justiça. Na altura, até dissemos que Moçambique era um Estado criminalizado, devido a essa penetração criminosa nas suas estruturas dirigentes. E acrescentamos que estava a beira do chamado state capture. A mim, chamaram-me de anti-patriota e ao serviço de mão externa. Mas o assassinato de Siba Siba Macuácua pôs freio ao rol de acusações, pois, estava ali, trágica, revoltante, uma evidência sem disfarce de uma realidade que apenas ficou menos pungente porque o assassinato do editor Carlos Cardoso teve julgamento e condenações. Por pressão da comunidade internacional.

Os barões moçambicanos sempre cultivaram uma forte consciência de que, para triunfarem, tinham que aliar-se ao Partido no poder, que controla todo o aparato estatal. Desde os tempos de Joaquim Chissano que era normal ver comerciantes ligados a actividades sujas oferecerem enormes quantias de dinheiro ao Partido Frelimo em tempo de eleições, numa prática de financiamento político desarmado de regras, que era o mesmo que comprarem a sua impunidade ou a vista grossa do Estado em matéria fiscal e aduaneira. Lembram-se das jantaradas em que o antigo presidente recebia directamente dinheiros da chamada comunidade empresarial de Maputo? Existem fotos documentando Nini Satar em ofertórios generosos à nata do partidão.

MBS cultivou ferozmente esse desiderato. De pequeno cantineiro de venda de capulanas em Nampula, tornou-se em pouco tempo um importante agente económico em Moçambique, um grande contribuinte, como sói dizer-se. A sua Kayum Center, na Karl Marx, era, antes do Maputo Shopping Center, o principal mercado de electrodomésticos de Moçambique, ao mesmo tempo que mantinha algumas lojinhas de capulanas nos subúrbios para cumprir a tradição.

Nos corredores de Maputo, o crescimento pujante do seu negócio era algo que assustava e deixava incrédula toda a gente. Amigos na Polícia e nas Alfândegas sussurravam explicações óbvias, mas nunca ninguém ousou levá-las às últimas consequências: MBS triunfava não com negócios limpos, mas porque estava ligado à droga. Por isso, todo o moçambicano que ouviu hoje a bombástica notícia, respira um alívio cúmplice: já sabíamos!!! Todos sabíamos, mas quem ousaria meter a mão num homem que alimentava o partidão?

Aliás, esta relação de MBS com o Partido é reveladora da promiscuidade entre política e negócios em Moçambique. E MBS soube usar desse trunfo, da noção de que o Partido era o centro do poder e que para manter esse poder precisaria de dinheiro para aguentar campanhas eleitorais desgastantes e tão caras dada a dimensão do país. Por isso, quando Armando Guebuza emergiu como sucessor de Chissano, quase a contragosto deste, MBS alimentou o novo candidato, comprando os seus cachimbos a preços astronómicos, oferecendo canetas de luxo mas comprando-as logo a seguir, voltando a oferecer os mesmos cachimbos (que Guebuza aparentemente já não usa), financiando o Congresso do Partido em Quelimane, tornando esta força política numa das suas lavandarias instrumentais para o funcionamento das redes agora desmascaradas.

Em 2004, na primeira corrida de Guebuza foi assim. Em 2009, também. Embora as chamadas alas honestas do partido soubessem das cavalgadas sujas de Bachir, nunca ninguém teve a coragem de sugerir que isso era perigoso para o país, para a economia, para a sociedade, para o nosso futuro colectivo. Houve sempre um silêncio cúmplice de todos, porque chefe é chefe.

MBS continuou a “progredir” por essa via. Com o partidão na mão, podia fazer sem que ninguém ousasse enfrentá-lo. Nos corredores das Alfândegas, ainda nos tempos em que a corporação aduaneira passava por uma reforma operacional e remoralizadora, os camiões de Bachir, cheios de importações, tinham luz verde para não serem revistados. Mais tarde, quando as Alfândegas regressaram para mãos moçambicanas, e, numa operação obscura em a introdução de scanners de inspecção não intrusiva foi confiada à Kudumba, uma firma de que a SPI (a holding do Partido) é sócia, MBS conseguiu que a sua mercadoria não passasse nesses instrumentos desenhados para impor maior controlo e ordem no comércio internacional, mas que no caso de Bachir nunca foram usados.

A impunidade e a evasão aduaneira já haviam sido compradas há tempo mas, ao longo dos anos, uma série de moçambicanos, figuras com cargos de chefia em departamentos do Estado (Alfândegas, Polícia, Finanças) aproveitaram-se da generosidade narcótica de MBS para construírem impérios de dinheiro, evidenciando enriquecimento ilícito e corrupção desenfreada, à qual o Estado não consegue controlar, mesmo depois de uma Lei (6/2004) e uma Estratégia Anti-Corrupção (2006) terem sido aprovadas sob o slogan da tolerância zero.

A menção pela Casa Branca do nome de MBS como sendo um dos mais influentes barões de tráfico de droga na África Austral é um golpe tremendo que Moçambique recebe por causa da sua relutância em lutar contra a corrupção e o crime organizado de cabeça erguida. Essa relutância não é inocente. Ela resulta da venda de impunidade que alimentou campanhas eleitorais e outras bizarrias de personalidade e imitações de grandeza. O mesmo lugar onde Barak Obama proíbe agora os cidadãos americanos de consumirem, é onde o Partido Frelimo abriu uma loja a custo zero – contra as centenas de USD/mês que custa o aluguer de um m2 para a prática comercial comum – para fazer merchandising dos seus símbolos e camisolas. E é onde, num acesso de provincianismo desmedido, foi instituída uma Guebuza Square, numa imitação insípida à famosa praça de Sandton City.

Esse lugar é o famoso Maputo Shoping Center, que abriu em 2007, depois de um investimento de 32 milhões de USD (segundo tem dito MBS a amigos), alegadamente financiados pela banca. E foi o Presidente Guebuza quem inaugurou o centro. Um dos incentivos dado a esse “grande investimento” foi MBS abastecer a mercearia do centro com produtos importados sem pagarem impostos, numa tremenda concorrência desleal.

Vivendo com salários de miséria, os moçambicanos adoram o Maputo Shopping, pelos baixos preços de mercearia, tal como adoravam o Kayum Center antes deste sofrer um incêndio no ano passado. Do incêndio, a polícia nunca revelou as causas, mas os bombeiros tiveram tremenda dificuldade em debelar o fogo e houve quem dissesse que isso tinha a ver com as “substâncias” que lá estavam. Quando o fogo deflagrou, um das caras públicas que acorreu ao local foi o ministro Manuel Chang, das Finanças, pois era preciso consolar um “grande contribuinte”.

Há meses, antes desta grande relevação da Casa Branca, foi anunciado que MBS conseguiu que o Estado lhe trespassasse o recinto da Marinha de Guerra, que fica mesmo defronte ao Shopping na baixa de Maputo. Não houve hasta nem concurso público, e MBS conseguiu mexendo uns pequenos pauzinhos controlar uma valiosa porção de terra na baixa de Maputo. Tem sido assim em Moçambique. A Lei de Procurement (54/2005) ainda não serviu para impor decência nos negócios do Estado e a gestão do solo urbano é feita sem critérios, servindo apenas para enriquecer figuras bem colocadas num país onde a Constituição estabelece que a terra é do povo.

Agora, o Estado moçambicano deve agir para fazer justiça usando as leis nacionais. As autoridades judiciais moçambicanas devem urgentemente solicitar à Justiça americana as evidências que ela diz ter contra MBS e, a partir daí, tomar todas as medidas devidamente enquadradas no direito nacional e no direito internacional aplicável a Moçambique. É uma questão de honra para todos os cidadãos moçambicanos. E é o mínimo que o Presidente Guebuza pode fazer para proteger a nossa dignidade.

Marcelo Mosse

(Retirado do http://thebackupunit.blogspot.com/2010/06/mbs-queda-da-mascara.html#more)

Aldeia Cultural: Uma Forma de Identidade

É com enorme prazer que anunciamos que entrámos na recta final da organização da ALDEIA CULTURAL 2010, podendo também apresentar uma programação recheada de aliciantes propostas nas distintas áreas artísticas: ARTES VISUAIS, CINEMA, DANÇA, GASTRONOMIA, LITERATURA, MÚSICA, POESIA, TEATRO E ARTES DE RUA.

Após o êxito alcançado pela edição anterior, apraz-nos registar a significativa adesão de centenas de artistas moçambicanos que, compreendendo o alcance desta realização, se mobilizaram para proporcionar ao público um acontecimento que, pela sua dimensão e filosofia, se assume como um dos mais globais e singulares produzidos em Moçambique.

A rua vai ser palco das relações de parcerias entre inúmeras organizações culturais e artísticas, sendo um espaço onde o público vai ter oportunidade de assistir à partilha cooperante entre artistas conceituados e novos valores, ao mesmo tempo que irá revelar as obras de grupos e criadores que, de outro modo, dificilmente veriam o seu trabalho divulgado junto de grandes audiências.

A Aldeia Cultural tem o seu enfoque na ocupação simbólica do espaço de rua com actividades que, durante o ano, ocorrem em salas de espectáculo e que, de forma mais ou menos formal, implicam que o espectador se tenha que dirigir a um espaço público ou privado com “regras” que o seleccionam, segundo critérios económicos ou de públicos-alvo específicos.

A Aldeia Cultural tem como público todos os que desejam fruir do que acontece num espaço que também, pelo menos durante alguns dias, lhe pertence para celebrar com os seus artistas o encanto da arte e a afirmação da identidade moçambicana numa porta aberta à DIVERSIDADE CULTURAL.

A entrada gratuita é um sinal da relação solidária que os artistas desejam fazer com o público para quem trabalham criativamente.
Caminho difícil de palmilhar, mas gostosamente trilhado com convicções e certezas de que o cruzar dos braços, nunca será uma posição que condiz com quem sonha e acredita que o futuro só poderá ser criado pela imaginação criativa e pelo investimento humano que lhe dispensarmos permanentemente.

Na união de esforços e empenhos, na concertação de sinergias que possibilita a congregação de vontades, na assumpção de uma sociedade civil activa que pega o destino nas próprias mãos…vivem-se momentos de edificação de um sonho colectivo que só se torna possível com a participação do público, ele protagonista também da festa popular.

Da congregação de objectivos comuns com as instituições oficiais se ampliam, nesta Aldeia Cultural, operativas respostas de produção que se reflectem no serviço público que se presta a cada espectador. Um acontecimento que, emanando da independência da sociedade civil, se concerta com atitudes governamentais que valorizam o movimento artístico do país, nomeadamente o Festival Nacional de Cultura que, a 22 de Maio, das 10 às 17,30h, apresentará os grupos apurados em cada Distrito. Mais de 350 artistas!

A cultura será rainha da rua, dando vida à cidade e afirmando-se como parceira fiel de um desenvolvimento que se deseja endógeno, integrado e humanamente sustentável.

A Aldeia, espaço tantas vezes injustificadamente desprezível por quem ocupa a Cidade, transporta os valores de amizade, de comunicação, de entreajuda, de solidariedade e de festa comunitária. São estes valores, tão pouco valorizados pelo crescimento urbano sem regras, que guiam a embarcação da Cultura num Índico pensamento de partilha de encantamentos.

Bem-vindos a esta Aldeia Cultural onde todos seremos, como pediu José Craveirinha, só tambores ecoando como a canção da força e da vida, noite e dia e dia e noite, até à consumação da grande festa do batuque.

O Irrealismo numa sociedade Africana

Por Leonildo Banze aka DingZwayu
Não é dúvida para ninguém que a África é o continente mais pobre do mundo. Também não constitui dúvida que onde se concentra um maior número de gente desfavorecida (ou pobre), a esperança tem sido uma forma de atenuar o sofrimento.
Por falar de esperança, a moda pegou! A campanha do actual presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama teve o seu ponto forte a transmissão de mensagens de esperança aos mais desfavorecidos (e ou discriminados socialmente), e estes decidiram votar nele bem como no seu Partido.
Em África, sobretudo a subsaariana, mas mais particularmente Moçambique, os Políticos nunca perdem a mínima oportunidade para transmitir a este povo inocente a mensagem de esperança: “together we can’’ ou simplesmente, “juntos podemos”. E essa mensagem é eficazmente passada pelos media.
É me alicerçando nestes media que me proponho a participar no debate proposto pela minha amiga e colega da “trincheira”, a Nkossikazi Negra Ziza, e desta forma compartilhar, através do conhecimento empírico que tenho sobre a sociedade moçambicana, até que ponto o conceito do irrealismo se encaixa aqui.
A mais ou menos trinta anos a televisão chegou a Moçambique. Um punhado de gente com capacidade financeira teve acesso a este meio que lhe oferecia divertimento no fim de alguns dias da semana, já que as emissões não eram diárias. Mas foi certamente a motivação para mudança de hábitos da pequena elite que apareceu por via disso.
Como não era tão abrangente, a esmagadora maioria da população moçambicana continuava a preservar a sua forma de estar, num autêntico resgate e preservação da cultura que até 1975 o colono nos impedia de usufruí-la, sabe-se lá porquê…
Nessa altura, década de 80, movidos pela ideologia socialista, tínhamos muitos amigos no mundo socialista sobretudo na Europa do Leste, onde os nossos irmãos foram acolhidos como trabalhadores. O principal destino destes irmãos era a ex- República Democrática Alemã (RDA).
Com a queda do Murro de Berlim em 1989, a política mundial mudou, e os alemães queriam, obviamente, reestruturar o seu sistema político. Decorrente disso, a comunidade estrangeira tinha que regressar aos países de origem. Os irmãos moçambicanos não constituíram excepção.
Para além de terem assimilado e trazido consigo hábitos de vida europeia , trouxeram nas suas bagagens muito tipo de máquinas incluindo televisores, aparelhagens sonoras, pelo que aquela pequena elite que apareceu com a era da televisão moçambicana, transformou-se numa grande sociedade de moçambicanos informados, o que veio a ser sustentado pela aprovação da nova constituição .
Na altura, fascinaram-nos os filmes chineses, americanos e os demais programas gravados em televisões internacionais. Conhecemos melhor o Michael Jackson, conhecemos o MC Hammer, Vanilla Ice, Snap, Madonna, Wu Tang Clan, Red Man, Def Squad, enfim conhecemos e nos deixamos atrair pela realidade dos outros no lugar da nossa.
Nessa altura não foram desenhadas políticas de consolidação da nossa cultura. As crianças ainda eram proibidas de usar as suas línguas locais para se comunicar. E eram ensinadas o Português e assim continuávamos colonizados culturalmente e sem identidade.
Moçambique democratizou-se, multipartidarizou-se e desenvolveu. A opinião pública cresceu e por via disso notou-se um “boom” no campo da mídia. Os jovens correram a trás e se informavam cada vez mais. Só que os conteúdos mais interessantes continuavam os estrangeiros.
Hoje em dia todos querem ser Jay-Z, Fifty Cent, Lil Wayne, Brad Pit, Beyounce. Esta é uma viagem sem volta: O Irrealismo. Ignora-se as verdadeiras estrelas da casa. O pai há muito tempo deixou de ser o herói do jovem. As novelas brasileiras incrementam o sonho de desfrutar a boa vida ai mostrada, algures em Copa Cabana e nas praias do Rio de Janeiro.
Quando se pergunta pela identidade do indivíduo, principalmente na zona urbana e suburbana, a resposta é um olhar pálido e uma desculpa só para não responder. Não conhece as suas raízes. Enquanto alguns estrangeiros, ocidentais principalmente, interessam-se em conhecer e revestirem-se da nossa cultura, nós fugimos dela com um sentimento de vergonha que vai se transmitindo de geração para geração.
“Mbora lá” correr para o resgate da auto-estima!
Xitiku Ni Mbawula já começou.
A Kaya!

Xitiko ni Mbaula – Paluxa

filmagem realizada no Africa Bar em Maputo.

nos microfones: DingZwayu e Sgee.