InterConexão histórica leva Angola/Brasil/Moçambique para o CCJ

O programa InterConexões Humanas realizado no sábado passado (27/11) foi histórico.  Pela primeira vez conectamos 3 países (Angola/Brasil/Moçambique) de forma estável, que garantiu um debate dinâmico e participativo.  Neste dia integramos também o público do CCJ que participaram de outras atividades do projeto ‘Que país é este? Moçambique’ de curadoria de Carlos Subuhana.

A pauta foi orientada aos temas de HipHop, Literatura Marginal, Meio Ambiente e Colaboração e trouxe ativistas dos países interessados nas possibilidades de trocas simbólicas oferecidadas pela ação.  Realizamos o primeiro sarau à distância com leitura de poesias em português e língua tradicional de Moçambique em que a produção literária atravessou fronteiras pelas conexões de internet e tournou-se acessível pela oralidade de seus interlocutores.

A principal reflexão causada pelo programa InterConexõesHumanas deste último sábado foi a necessidade de maior intercâmbio entre Angola e Moçambique e o início do diálogo com os demais países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) para a consolidação da rede InterConexõesHumanas enquanto instrumento de difusão da cultura dos países lusófonos e da criação de bases para fomento do intercâmbio e da colaboração.

O balanço final foi de que chegamos a um momento mais maduro e de comprometimento com a difusão cultural sob todas as linguagens de expressão dos membros da CPLP e de que a Sociedade Civil Organizada é capaz de empreender ações inovadores em direção à uma cultura solidária às afinidades,  com perspectivas independentes dos veículos de comunicação de massa que resistem em não divulgar questões de interesse real dos produtores culturais e educadores de seus países.

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Brasil faz lobby por TV digital na África

Meta é emplacar o sistema japonês, o mesmo do Brasil, e abrir mercado

Venda de software para TV digital na América do Sul representou 30% do faturamento do setor no ano passado

CLAUDIO ANGELO

Um grupo de empresários e funcionários do governo brasileiro desembarcou ontem em Johannesburgo com uma tarefa difícil: convencer a África do Sul e mais dez países do continente a adotarem o padrão de TV digital japonês, usado pelo Brasil.

A missão integra um esforço de lobby -ou “divulgação”, como prefere o Itamaraty- para reverter a inclinação sul-africana a adotar o padrão europeu. A chancelaria estuda até mesmo uma carta do presidente Lula a seu colega Jacob Zuma para catalisar o processo.

Tanto o Brasil como o Japão, detentores da tecnologia, estão de olho no mercado de 250 milhões de pessoas representado pela SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral).

O bloco inclui economias em ascensão como Angola e Moçambique e deve bater o martelo em novembro, seguindo a decisão da África do Sul, potência regional.

As emissoras de TV e o nascente setor de eletrônica e softwares do Brasil estão animados com a possibilidade de negócios com a África após ganharem a América do Sul (exceto Colômbia e Uruguai) para o sistema japonês, ISDB-T (Sistema de Serviços Integrados de Transmissão Digital Terrestre, em inglês).

Segundo André Barbosa, assessor da Casa Civil para o tema, estima-se que a venda de software para TV digital à região tenha respondido por até 30% do faturamento do setor no último ano, “cerca de US$ 200 milhões”.

O Brasil também fabrica aparelhos transmissores para TV digital e conversores, mas concorre com a produção japonesa.

“Os japoneses invadiram a América do Sul, e até agora só fizemos uma venda, para o Chile”, diz Carlos Frutuoso, da Linear. A empresa, que fabrica transmissores em Minas, fecha agora o primeiro grande contrato com um país sul-americano, para vender mais de 40 aparelhos -mais do que já instalou no Brasil.

“TV SOCIAL”

A África é a fronteira final da TV digital. Trata-se do último continente que ainda não se decidiu por um padrão.

Segundo Hadil da Rocha Vianna, diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia do Itamaraty, o ISDB-T é o mais adequado a países como o Brasil devido às suas “qualidades sociais”. Prioriza a transmissão de TV aberta gratuita para celulares, e o sinal resiste a interferências.

O europeu DVB, mais adotado no mundo, é o favorito das teles, que poderiam entrar no mercado de TV. “Iam querer cobrar por jogo de futebol no celular, e no ISDB-T é gratuito. Para a população pobre, isso é fundamental.”

Outra vantagem é o fato de ser livre de royalties e aberto a aportes de tecnologia dos países que o adotam.

O Brasil, primeiro a adotar o sistema, criou um software chamado Ginga, que permite interatividade. Ele está sendo testado no Peru e no Chile.

REVERSÃO

Na África do Sul, a disputa terá de reverter a decisão tomada pelo DVB -sua implantação foi congelada graças ao lobby nipo-brasileiro.

O sistema é o preferido dos radiodifusores sul-africanos, e alguns já compraram transmissores para o padrão europeu -que, ironicamente, foram fabricados no Brasil.

“Uma decisão dessas não se reverte assim fácil. Em dez anos será preciso ter trocado todos os equipamentos”, afirma Rehana Dada, produtora de TV sul-africana.

Por outro lado, diz, a TV estatal SABC, principal da região, passa por turbulências políticas em sua direção.

“Não imagino que decisões importantes ou mudanças de tecnologia sejam possíveis no futuro próximo”, afirma a produtora de TV.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me2009201007.htm

O Significado do Nascimento na Minha Terra

Por: Leonildo Banze a.k.a DingZwayu
e-mail: leonildobanze@gmail.com

A estória que me proponho a compartilhar convosco, diz respeito às diferentes reacções que a gente da Minha Terra manifesta quando uma mulher dá luz a um bebé do sexo masculino ou, obviamente, do sexo feminino.
Apenas para vos situar meus caros: eu sou africano de Moçambique, nascido em Maputo, mas com sangue dos Chope (comunidade patrilinear) percorrendo minhas veias. A razão disto prende-se com o facto dos meus pais serem oriundos daquela região. Esta região estende-se desde o norte da Província de Gaza até o sul da Província de Inhambane.
Esta minha terra caracteriza-se pelo muito elevado índice de analfabetismo, onde a estrutura socioeconómica, apesar das características próprias de uma região rural africana, tem algumas semelhanças com a de outras regiões do mundo nomeadamente, os Estados Unidos da América, Reino Unido e Brasil só para citar alguns exemplos. Isto porque nela também prevalece “a lei do mais forte”, ou seja é “gente” todo aquele indivíduo que detém algum poder económico numa região onde a maioria esmagadora é pobre.
É nesta maioria onde reside o elevado índice de esperança de algum dia afugentar o mal da pobreza. Sempre se procura esperança em alguma coisa: numa árvore, onde se estabelece contacto com os antepassados; num terreno herdado, que pode ser vendido a qualquer momento; num familiar que violou a fronteira da vizinha República da África do Sul e se faz lá dentro a procura de riqueza, que algumas ilusões acreditam lá abundar; nas divindades, razão pela qual pululam nestas bandas diversas religiões, desde as animistas até as verdadeiras multinacionais da fé, com maior enfoque a Igreja Universal do Reino de Deus.
Mas a esperança a se ter em conta nesta Minha Terra tem a ver com o nascimento de uma criança. Obviamente que é um motivo de júbilo, porque é o aparecimento de mais um membro da família, que para trazê-lo ao mundo foi necessário muito amor sobretudo na hora de decisão da consumação do acto.
Mesmo assim o significado do nascimento na minha terra estica-se ainda mais. Ao longo de muitos anos homem que seja digno de sê-lo, tinha que provar a sua masculinidade ajudando a gerar rapazes, não só pelas razões já descritas, mas também pela importância que o nome representa nas sociedades africanas. Explico: é que o nome passa de geração para geração através da linhagem masculina. Estes impõem o uso do seu nome quando criam uma nova família e assim em diante. Há, também o factor económico isto é, mesmo depois de casado, o homem tem obrigação de proporcionar um bem-estar eterno aos seus pais, pelo menos quando vivos.
Já o nascimento de uma mulher foi ao longo dos tempos, motivo de insatisfação, o que em muitos casos termina em separação dos pais. A mulher não podia preservar o nome da família e muito menos proporcionar o bem-estar eterno dos pais, enquanto vivos, depois de se casar.
Isto acontece porque na Minha Terra não se dá importância ao facto de uma mulher ter que ir a uma escola formal e se formar. Ela, mas é, deve ajudar a mãe nos trabalhos domésticos e na machamba / no campo.
Eis a surpresa: nos últimos tempos, a mulher se transformou na fonte de rendimento mais viável no que diz respeito à espécie humana.
Ter um número considerável de filhas, significa ser proprietário de também um número considerável de cabeças de gado bovino. É que no casamento tradicional dos Chope e não só (lobolo), ocorre um acto de “venda” da mulher, onde se recebe em troca cabeças de gado bovino e/ou avultadas somas de dinheiro convencional.
O que se tem verificado ultimamente é que a mulher nem precisa de se formar para se transformar em “bem” para os pais. Ela tem mais um dado, que bem utilizado no momento certo e com a pessoa certa gera riqueza. É o facto de ela ser mulher… Isso não é novidade para ninguém e os homens sabem muito bem disso.

Ilhas e pontes, diversidade e semântica

por:
Guilherme Marin e Paulo Edison Indio

Em tempos de organização social em rede através do constante aprimoramento tecnológico da internet, muitos conflitos de interesse se acumulam em torno do compartilhamento e da produção de conteúdos audiovisuais. Para a discussão de temas para os quais ainda não temos solução foi criado o Fórum Internacional de Governança na Internet – IGF, que, em sua terceira edição no ano de 2008, foi realizado na cidade de Hyderabad, Índia.
O imaginário coletivo associa, muitas vezes, a internet a um modelo anárquico de livre expressão de idéias e intercâmbio de conteúdos, portanto, ao reunirmos certo grupo de pessoas que debatem acerca de bases para a constituição de regras logo vem à mente o modelo ocidental positivo de contrato social.
Generosa foi a curadoria das mesas de debate que buscou aprofundar três eixos temáticos embasados no desafio da inclusão do próximo bilhão de usuários globais na internet, nas dificuldades de infra-estrutura de acesso que essa inclusão implicará e, ainda, como se dará este processo no trato de tamanha diversidade humana em que um universo lingüístico não encontra representatividade de conteúdos frente a um número restrito de idiomas que prevalecem na web.
Entre as questões fundamentais estão algumas perguntas como, por exemplo: Incluir para quê? Inclusão a serviço de quem? A criação de infra-estrutura atende a demanda de que mercado? A padronização de um idioma serve aos interesses de quais áreas do conhecimento e países?
A humanidade imersa em crise econômica, histórica e social, vive um período em que o modelo de sociedade de consumo e o ideal de organização social se encontram desacreditados, enquanto se assiste confortavelmente a banalização da vida e a desumanidade nas relações de mercado. As relações em rede, tanto econômica como social, fazem parte da sociedade moderna, não obstante podemos dizer que a web está consolidada como uma ferramenta essencial para a troca de conhecimento entre a diversidade de povos que constituem a humanidade.
Segundo previsões deveremos atingir a expressiva marca de um bilhão de usuários de internet em 2009, portanto, é o momento apropriado para refletir uma ética global a partir do que já observamos nestes primeiros passos de consolidação de redes sociais transnacionais e devemos nos perguntar sobre os desafios que deveremos enfrentar no processo de inclusão do próximo bilhão de usuários. É importante discutirmos como podemos partilhar este espaço com os próximos que se juntarão a redes, produzirão textos, podcasts e vídeos distribuídos em canais globalmente conectados como o celular, a internet e a TV digital.
O encontro de culturas tão diversas produz choques, inevitavelmente, ao passo que perdemos a referência espacial entre ocidente e oriente, periferia ou centro, e passamos a nos identificar conceitualmente enquanto redes. A economia contemporânea, segundo o geógrafo Milton Santos, se organiza em rede, todavia, a demanda é definida do externo para o interno, ou seja, o mercado por meio da intensa propaganda massifica o ideal de sociedade construindo quase que hegemonicamente um modelo social padrão. É a supressão da cultura, do conhecimento local e a dependência externa que gera concentração de renda, apropriação de conhecimento, exploração e miséria.
O futuro nos obriga a buscar soluções que atuem em mediação com fins de equilibrar, em oposição ao modelo da negociação predominantemente utilizado na cultura ocidental, que favorece o aparecimento de assimetrias e pode facilmente ser observado pela análise da infra-estrutura de conexão das regiões mais carentes do planeta, cujas precariedades aumentam o custo por tecnologias alternativas mais sofisticadas. Injustamente vivemos um modelo em que o custo de produtos e serviços é extremamente maior para os que menos podem pagar, o caso da maior parcela da população mundial. Devemos lembrar que exemplos não faltam de investimentos externos que geraram desenvolvimento e ao mesmo tempo dependência, padronizações de consumo e relacionamentos. Na America Latina, por exemplo, viveu-se um processo histórico de importação de tecnologia em invés de investimentos na produção tecnológica, tornando-a dependente dos acordos e regras da política econômica internacional que gera miséria e concentração de riquezas. Não defendemos o isolamento econômico, investimentos internos devem ser mediados, existe a necessidade de pensar o que, como, quais as principais conseqüências sócio-ambiental e quem se beneficiará no longo prazo por esse investimento.
Afora lançarmos a atenção a aspectos técnico-físicos relativos a acessibilidade, nos obrigamos a enfrentar o desafio de produção de conteúdo que identifique realmente esta diversidade. Neste aspecto a escolha da Índia como anfitriã do IGF também foi muito apropriada devido a grandeza populacional e da miscelânea cultural de seu bilhão de falantes distribuídos em diversas línguas particulares de cada região do país.
O rompimento do padrão espacial estabelecido aproxima o rural e o urbano, o materialismo e o espiritualismo, e nunca a noção de valor foi tão distanciada do ícone do dinheiro como no momento histórico em que vivemos. Devemos avaliar a importância dos preciosos conhecimentos tradicionais de culturas longevas, sua oralidade, sua mitologia, línguas e artes, são de valor inestimável desenvolvido historicamente pela ancestralidade humana. Neste novo contexto de rede global, o conceito de Humanidade ganha em significado. Afinal, todos os homens e mulheres do planeta são partícipes desta comunidade chamada Humanidade?
O que atrai na internet é a possibilidade de acesso a conhecimentos construídos em um sem número de países. A abrangência do banco de dados e de aplicativos disponibilizado terá relação direta com a capacidade de cada indivíduo de transitar em diversas línguas, hoje com preponderância para o inglês.
Países, como Burkina Faso, que adotaram como língua oficial um idioma diferente daquele que guarda o conhecimento tradicional de sua população, apresentam casos bastante sensíveis, visto que a maior parte da comunicação entre os cidadãos se dá pela tradição que detém o conhecimento oral de sua cultura. Poucas são as línguas tradicionais que foram transcritas em caracteres compatíveis com as interfaces existentes. Trata-se de disponibilizar conhecimento e esta é a base funcional da própria internet.
É necessário criar ciberespaços em que os usuários se identifiquem e se reconheçam. Só assim é possível gerar interesse e proliferar a produção de conteúdo, localmente. O recurso audiovisual assume fundamental importância enquanto instrumento de registro da oralidade e da linguagem corporal e é capaz de agregar comunidades, além de possibilitar a comunicação direta entre pontos isolados geograficamente, mas que partilhem identidades culturais. A internet é baseada não só na produção de conhecimento, mas na interatividade que constrói críticas e comunidades a partir dos conteúdos postados.
O receio reside no fato de sabermos se haverá catalização de esforços nesta direção ou se manteremos a lógica ocidental iluminista que busca estabelecer formas a priori que abranjam a totalidade das experiências. Ora, num mundo em que a diversidade cultural está cada vez mais surpreendente, não é possível pensarmos em modelo totalizante porque assim caminhamos rumo à injustiça.
Nosso momento histórico exige respeito, solidariedade e ética. Não banalizemos estas palavras, pois vivemos emergências ambientais, sociais e econômicas, em que o modo de vida global passa a fazer parte da cinética cotidiana individual de cada pessoa do planeta. As relações pessoais em ambiente virtual devem buscar romper este padrão de massificação cultural que vivemos muitas vezes estimuladas por governos e empresas que têm dentro de si, na burocracia e no projeto industrial, a padronização de inúmeras repetições umas idênticas às outras a fim de ganhar eficiência, reduzir tempo e custos.
Pessoas não podem se resumir a fichas e processos. O caminho para a preservação e difusão cultural deve respeitar um equilíbrio e propiciar a livre escolha do usuário da internet. A falta de conteúdo em línguas tradicionais em Burkina Faso mantém as pessoas fora da internet. O ensino de francês aos falantes de Mòore ou Dyula não resultará em um efeito inclusivo, mas na exclusão da identidade cultural burkinense da web e desta forma impossibilitará a apropriação do ciberespaço por sua população.
É necessário esforço governamental, de empresas e da sociedade civil organizada nesta trajetória de construção e colaboração para que conteúdos e aplicativos sejam disponibilizado de modo igualitário.
A sociedade local tem que participar e conseqüentemente se mobilizar para atuarem como protagonistas na construção de uma sociedade global mais justa com respeito a diferenças, sendo a internet uma ferramenta que possibilita a produção e acesso ao conhecimento de todos e a todos.