Fotos do Intercâmbio no Facebook e Programação

Confira também as publicações realizadas durante o intercâmbio de André Gustavo (a.k.a. DJ EmTranseGente), também pelo FaceBook.  Já temos as primeiras fotos postadas no álbum InterConexõesHumanas.

Visite, comente e acompanhe.  O projeto InterConexõesHumanas tem como principal objetivo aproximar artistas e educadores dos países de língua portuguesa e esperamos poder proporcionar inúmeras outras oportunidades de intercâmbio, mas, por hora, virtualmente já podemos prover uma pequena fresta no canal de comunicação entre Brasil e Moçambique.

” Esperemos que um dia isto se torne uma janela “

Xitiko ni Mbaula – Paluxa

filmagem realizada no Africa Bar em Maputo.

nos microfones: DingZwayu e Sgee.

O Significado do Nascimento na Minha Terra

Por: Leonildo Banze a.k.a DingZwayu
e-mail: leonildobanze@gmail.com

A estória que me proponho a compartilhar convosco, diz respeito às diferentes reacções que a gente da Minha Terra manifesta quando uma mulher dá luz a um bebé do sexo masculino ou, obviamente, do sexo feminino.
Apenas para vos situar meus caros: eu sou africano de Moçambique, nascido em Maputo, mas com sangue dos Chope (comunidade patrilinear) percorrendo minhas veias. A razão disto prende-se com o facto dos meus pais serem oriundos daquela região. Esta região estende-se desde o norte da Província de Gaza até o sul da Província de Inhambane.
Esta minha terra caracteriza-se pelo muito elevado índice de analfabetismo, onde a estrutura socioeconómica, apesar das características próprias de uma região rural africana, tem algumas semelhanças com a de outras regiões do mundo nomeadamente, os Estados Unidos da América, Reino Unido e Brasil só para citar alguns exemplos. Isto porque nela também prevalece “a lei do mais forte”, ou seja é “gente” todo aquele indivíduo que detém algum poder económico numa região onde a maioria esmagadora é pobre.
É nesta maioria onde reside o elevado índice de esperança de algum dia afugentar o mal da pobreza. Sempre se procura esperança em alguma coisa: numa árvore, onde se estabelece contacto com os antepassados; num terreno herdado, que pode ser vendido a qualquer momento; num familiar que violou a fronteira da vizinha República da África do Sul e se faz lá dentro a procura de riqueza, que algumas ilusões acreditam lá abundar; nas divindades, razão pela qual pululam nestas bandas diversas religiões, desde as animistas até as verdadeiras multinacionais da fé, com maior enfoque a Igreja Universal do Reino de Deus.
Mas a esperança a se ter em conta nesta Minha Terra tem a ver com o nascimento de uma criança. Obviamente que é um motivo de júbilo, porque é o aparecimento de mais um membro da família, que para trazê-lo ao mundo foi necessário muito amor sobretudo na hora de decisão da consumação do acto.
Mesmo assim o significado do nascimento na minha terra estica-se ainda mais. Ao longo de muitos anos homem que seja digno de sê-lo, tinha que provar a sua masculinidade ajudando a gerar rapazes, não só pelas razões já descritas, mas também pela importância que o nome representa nas sociedades africanas. Explico: é que o nome passa de geração para geração através da linhagem masculina. Estes impõem o uso do seu nome quando criam uma nova família e assim em diante. Há, também o factor económico isto é, mesmo depois de casado, o homem tem obrigação de proporcionar um bem-estar eterno aos seus pais, pelo menos quando vivos.
Já o nascimento de uma mulher foi ao longo dos tempos, motivo de insatisfação, o que em muitos casos termina em separação dos pais. A mulher não podia preservar o nome da família e muito menos proporcionar o bem-estar eterno dos pais, enquanto vivos, depois de se casar.
Isto acontece porque na Minha Terra não se dá importância ao facto de uma mulher ter que ir a uma escola formal e se formar. Ela, mas é, deve ajudar a mãe nos trabalhos domésticos e na machamba / no campo.
Eis a surpresa: nos últimos tempos, a mulher se transformou na fonte de rendimento mais viável no que diz respeito à espécie humana.
Ter um número considerável de filhas, significa ser proprietário de também um número considerável de cabeças de gado bovino. É que no casamento tradicional dos Chope e não só (lobolo), ocorre um acto de “venda” da mulher, onde se recebe em troca cabeças de gado bovino e/ou avultadas somas de dinheiro convencional.
O que se tem verificado ultimamente é que a mulher nem precisa de se formar para se transformar em “bem” para os pais. Ela tem mais um dado, que bem utilizado no momento certo e com a pessoa certa gera riqueza. É o facto de ela ser mulher… Isso não é novidade para ninguém e os homens sabem muito bem disso.